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...que eu lhe dou de graça

por sapoprincipe, em 26.07.17

Se encantar com o projeto da revista, o cenário da novela, ou com a sala da amiga (ou vizinha) pode ser um parâmetro para o seu projeto. Uma composição / Estilo / Conceito que você gosta.
Agora, é preciso adequar os elementos ao espaço que você tem. Inclusive avaliar se é possível criar aquela atmosfera no espaço existente e com os elementos que você dispõe.
Querer um espaço "clean", tendo áreas reduzidas e uma lista enorme de itens para entrar na composição, por exemplo, torna tudo mais complicado.
Algumas vezes, a solução e escolha do projeto passa, também, por uma questão de autoestima.
Deixe o profissional trabalhar e ouça as sugestões. Ele pode estar vendo a beleza que você ainda não consegue ver refletida no espelho.
E ainda terá uma vantagem, o projeto terá a sua cara, ficará bonito e será original.

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publicado às 08:52

Astrid

por sapoprincipe, em 20.07.17

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- de que cor eu pinto a parede da sala?
Esta é uma pergunta que já ouvi inúmeras vezes e na maioria tensionei as costas.
Quando a pergunta é feita no feissy é comum ter lá nos comentários:
- pinte de azul. Adoro azul.
- pinte de pérola. Pintei a minha sala e ficou ótimo.
- pinte de...
Aí, lá vou eu ser o chato. E comento: qual o clima você quer criar? Quais as dimensões da sala? Entra muita luz pelas janelas? De que cor é o seu sofá? E do tapete?...
Na realidade temos poucas cores pra escolher.
Pinte de azul, tranquilidade. Vai ficar bom? Sim.
Quer uma sala luminosa? Pinte de amarelo. Vai ficar bom? Claro. Dramaticidade? Pinte de... Vai ficar bom? Com certeza.
Logicamente, o fato de uma cor ser mais clara ou mais escura, menos ou mais luminosa, mais ou menos acinzentada, aumenta em milhares de vezes nossas hipóteses de escolha e muda nosso "entendimento" sobre ela.
Como também o tamanho dos espaços, a dimensão da parede mais visível, as cores dos outros elementos - piso, cortinas, tapetes, mobiliário, quadros, peças decorativas, ... - irão interferir na composição.
O conceito do projeto e o clima que se quer criar no ambiente irá nortear a escolha.
A parede pode ter qualquer cor? Sim. Se ela estiver em harmonia com o conceito e com o conjunto, e dentro do seu gosto, a resposta ao "vai ficar bom?" será - sim / claro / com certeza.
Uma parede ocre, móveis pesados de madeira talhada, cortinas de tecido cru nunca irá transmitir idéia de modernidade. Pintar a parede de amarelo tendo móveis de madeira clara, pode ficar meio pálido.
Então, não deixe de pensar no conjunto ao escolher a cor da sua parede.

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publicado às 09:01

padrão

por sapoprincipe, em 04.04.17

Lendo um texto do TAB - Por um design unissex - que a Monix compartilhou, me dei conta de como essa discussão já passou pelos meus projetos. Tempo.
Em 2005, quando voltei pro Brasil, fui indicado para fazer um projeto numa escola Técnica em Santíssimo. Como era um projeto grande, chamei o arq. Maurício Campbell para fazê-lo comigo.
Uma das questões eram os banheiros. O banheiro feminino ficava dentro do vestiário e o banheiro masculino tinha entrada pelo outro lado. Completamente separados (embora as paredes dos fundos se comunicassem). Como era um prédio antigo, que tinha sofrido várias obras ao longo do tempo, não era um projeto de fácil solução. Mas, juntando todas as áreas e deslocando o vestiário para a quadra (outra parte do projeto), conseguimos criar uma nova sala - que faria o corredor ser todo com portas de entradas de salas e, no corredor lateral, a entrada dos banheiros. Aproveitando a estrutura existente - pintamos pilar e viga de amarelo, criando um pórtico que demarcava, no corredor, a entrada dos banheiros que tinha, na área de entrada, os lavatórios (comum aos dois banheiros) e, de cada lado, os banheiros feminino e masculino. Os banheiros foram calculados ao milímetro para evitar cortes e desperdícios de cerâmica. Então, tantas cerâmicas + espaçamentos determinavam a largura dos reservados e a altura alinhava com a divisória de granito e arrematando - cerâmica e divisória - uma faixa de azulejo 10x10 amarelo. Como a escola tinha uma barra cinza pintada em todos os corredores, mantivemos o cinza na cerâmica e escolhemos o amarelo para os detalhes (barra e forração das portas), além de fugir do padrão rosa meninas/azul meninos. Os banheiros ficam assim exatamente iguais (ou quase, visto que o dos meninos, além dos reservados, tinha o mictório. E no das meninas tinha mais um número de boxes).
Discussão importante. Já não me lembro o porquê de um comentário, visto que banheiro comum não era uma discussão na época. Logicamente, adiantei que não iria propor, por ser um avanço muito grande. Mas... a proposta tinha os lavatórios em comum e não tinha porta no acesso – o que facilitaria a circulação. “Oh, mas os meninos irão entrar no banheiro das meninas..." Contra-argumento, a porta não seria exatamente um impeditivo caso houvesse interesse em... e, segundo, como aqui é uma escola, cabe a vocês ensinarem que eles tenham respeito pelas garotas e pelo espaço do outro.
Outra questão era a manutenção dos banheiros. Inclusive pelo mau uso dos alunos. Nossa proposta foi a que, no início das aulas, fizessem uma reunião com todos os alunos, apresentassem a reforma dos banheiros - que foi feita pra eles, com o dinheiro deles (a mensalidade cobre o funcionamento, reformas e manutenção) - e quanto melhor eles cuidassem, mais tempo teriam um bom banheiro pra usarem.
Fiquei bastante feliz quando eles compraram as ideias.
O projeto ficou bem legal e foi aprovado também pelos alunos.
Quando voltei lá, tempos depois, para ver outro projeto, soube que, 3 meses depois do início das aulas, um aluno escreveu na parede do banheiro, mas foi facilmente identificado. Chamaram os pais, resolveram a questão da pintura e não voltou a acontecer. Final de 2010, voltei à escola para discutir um outro projeto e o banheiro continua lá, "inteiro". Tinha uns amassadinhos no mictório, mas acho que eram mais do bater das vassouras do pessoal da limpeza do que propriamente dos alunos.
Um bom projeto também pode influenciar no comportamento. ;c)

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Banheiros / Escola

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publicado às 06:02

Faaaaaala, Mangueira!

por sapoprincipe, em 17.01.17

Quando da postagem sobre a série Gilmore Girls, comentei da cozinha da Sookie e que eu gostaria, também, de fazer uma decoração em verde-amarelo. Ao que uma amiga (Oi, Terla) disse que iria me indicar a uma destas pessoas "politizadas" com o nacionalismo exacerbado. Como assim? Por que só eles poderiam gostar?
Estas combinações icônicas - verde/amarelo, vermelho/preto, verde/rosa -sempre geram apreensões, pois sempre se imagina a versão conhecida.
O verde/amarelo não precisa cair no verde bandeira e no amarelo ouro, tem variações aí para tirar o ar de bandeira. Veja a cozinha da Sookie [se alguém encontrar uma boa imagem, me envia, sff. Eu tentei, mas titio google não me ajudou nessa.].
Uma mulher vestindo um pretinho básico com uma rosa vermelha na mão não será Flamengo.
E o verde/rosa pode não cair no samba.
Há tempos, uma amiga me chamou pra fazer a decoração da sua sala. Algumas questões se colocavam - o ambiente precisava ser fresco, luminoso e aconchegante.
Com as peças que ela trazia do outro apartamento, o aconchegante ficava contemplado - neste item a cor clara não ajuda muito mas, como os móveis eram de madeira escura, contrabalançavam.
A cor clara resolvia o luminoso e, sendo uma cidade tropical, a opção pelo verde - cor fria - encaminhava o fresco.
Como ela havia passado por um problema sério de saúde recentemente, embora esta não seja a minha linha de trabalho, o verde ainda tinha a opção de escolha por ser uma cor curativa na cromoterapia. Assim, a opção pelo verde ficou definida e eu decidi compor com o rosa (caí na armadilha de que rosa é cor de mulher).
Um dia, a irmã dela me encontrou e questionou:
- Você irá mesmo usar verde e rosa?
- Sim, vamos usar verde e rosa, confirmei.
- Ai, que horror, vai ser Mangueira.
Conhecendo minha amiga e cliente, dei corda, pois sabia que ela não havia contado os detalhes.
E assim foi feito. Pintamos as paredes de um verde água clarinho e compomos com uma faixa de papel no roda-teto com uma estampa floral (mais uma vez o feminino?) em tons de rosa claro e salmão e folhas em tons de verde. Mandamos estofar a poltrona com um tecido rosa seco / bois de rose e o tecido do sofá de uma estampa com rosa também, complementado com almofadas do rosa da poltrona.
A poltrona tem um adendo ótimo, acho eu. Ela a encontrou jogada na rua. E decidimos aproveitar, claro, visto que era uma peça em ótimo estado e original dos anos 50.
Mais um detalhe, ela tinha uma mesinha com base de ferro e tampo de vidro. Como o espaço da sala não era grande e não caberia mesinhas dos dois lado do sofá, coloquei a mesinha na varanda mas, junto ao sofá. Para criar a ilusão de que a mesa dava apoio ao sofá, fazendo a sala parecer um pouco maior.
Assim, acho que consegui fazer uma sala verde/rosa sem que ficasse parecendo a Mangueira.
Inclusive, a irmã achou que ficou bom. ;c)

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NB – Se não me engano, não comentei com ela que um dos motivos
da escolha do verde era a saúde - criar um ambiente saudável e restaurador.
Descobrirá ao ler o post. Lógico que o restabelecimento dela se deve
à boa equipe de médicos que a atendeu. Se o verde contribuiu, não sei.
Mas atrapalhar, não atrapalhou, com certeza.

NB2 - o verde era claro, apesar da distorção da primeira foto.

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publicado às 11:36

sensação térmica

por sapoprincipe, em 26.10.16

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Dar nomes aos bois. Nem sempre é fácil e nem sempre é entendível se o vocabulário não fizer parte do "dicionário" das pessoas. Agora, com a expressão - sensação térmica - tão corriqueira nos noticiários e previsões do tempo na telinha, pode ser que torne mais fácil.
Insistir que as cores frias (azul, verde, roxo) podem amenizar a sensação de calor é um trabalho insano. Confesso que nem com os amigos, que insisti muito, consegui bom resultado. Numa das primeiras vezes que sugeri para um cliente a resposta foi: vamos, então, pintar a casa de verde porque assim não compro ar condicionado. Ok, entendi o recado - não acredito nesta balela. Mas é verdade.
As cores frias - acalmam, relaxam. As cores quentes - excitam, estimulam  e aumentam o batimento cardíaco.
Como as pessoas adoram uma citação para acreditar, foi bom ler Itten para o meu tcc e descobri o estudo dele.

Estimulante e relaxante é o que poderá gerar a sensação de calor.
[...] experimentos têm demonstrado uma diferença de 5 a 7 graus [3-4ºC] na sensação subjetiva de frio ou calor entre uma sala de trabalho pintada de azul-esverdeado e uma pintada de vermelho-alaranjado. Ou seja, na sala azul-esverdeado os ocupantes sentiram que 59ºF [15°C] estava frio, enquanto na sala de vermelho-alaranjado não sentiram frio até que a temperatura caísse para 52-54°F [11º-12ºC]. Objetivamente, isso significava que o azul-esverdeado diminui a circulação e vermelho-alaranjado a estimula (ITTEN, 1976, p.64).*


4º pode não parecer muito, mas ter a sensação térmica de que o dia está mais fresco neste pais tropical, é bom. Sempre bom.

Se vc odeia verde, não suporta azul e acha roxo horrível, não vá pintar sua casa com estas cores. Tente usar então, as cores quentes menos saturadas, menos luminosas (com uma mistura grande de cinza na composição da tinta) para pelo menos não aumentar a sensação térmica do calor.
Um bom projeto, uma boa implantação no terreno, ventilação cruzada, um paisagismo bem feito no jardim poderá inclusive diminuir bem o uso de ar condicionado, mas isso para quem está construindo uma casa. Para quem compra uma casa ou um apartamento onde não poderá alterar essas variantes do projeto, as cores ajudam e muito nessas sensações.
Embora ache que nem isso ajudará a diminuir os posts com reclamação do calor no feissy. rs

*Tradução nossa, a conversão em ºC foi feita através da fórmula ºC =( ºF-32)/1,8.

NB - as cores não são sugestões para as suas paredes.
é só um exercício de composição com cores frias.

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publicado às 18:16

cabides

por sapoprincipe, em 12.10.15

Depois de "ouvir" minha amiga ~linda e inteligente~ Mariana Aldrigui dizer, no feissy, que "odeio pendências", quase me enfio debaixo da mesa.

Lembrei do armário que está há tempos pedindo: "me arrume". Afinal, o que se faz num feriado, com sol, numa cidade que tem praia? Isso, arruma-se o armário, apesar de a procrastinação ser minha melhor qualidade.

Faz tempo que venho adiando. Queria fotografar o armário, apesar de saber que não irei falar nada que já não ande aí na internet sobre arrumações. Só queria mesmo reforçar a importância de pensar na divisão interna dos armários - gavetas, prateleiras e paus de cabide. Além da quantidade, as alturas para tirar melhor proveito. Sempre sugiro aos meus cliente substituirem o calceiro por pau de cabide. Camisas em cima e calças embaixo e visíveis facilitam na hora da escolha da combinação. Foi o que fiz aqui.

Cabides todos iguais (ou quase - os meus são pretos, azuis, amarelos e laranjas. Quando quis comprar mais, não achei mais dos pretos que havia comprado inicialmente). Camisas voltadas todas para o mesmo lado, ajudam. Aqui, optei arrumar por cores (por que será?), mas poderia ser do casual para o formal - das frescas para as invernais. O armário é seu, decida. O que irá facilitar na segunda de manhã, no dia que precisar ser ágil por estar mais do que atrasado para aquela reunião importante? - Ou só mesmo para ir beijar @ namorad@.

Usei cabides para "saias", que herdei de uma cliente muito especial, para pendurar as bermudas, cabides pretos para as calças e nos cabides azuis as calças que estão sob avaliação - se até o final do ano não voltarem a servir irão para doação. Como a dieta sempre começa na próxima segunda tá difícil. Segunda já não é um dia fácil, ainda tem que ser o dia do início da dieta? Putz! Preciso mesmo alterar isso. Começar a dieta numa quarta e a ginástica num sábado. Assim, quem sabe resulta?!

As camisas sociais nos amarelos e as camisas pólo (que a Tíccia não me oiça) nos laranjas (é, eu sei, não devia pendurar, mas meu "uniforme de obra" fica pendurado).

Os cabides de madeira que "roubei" do meu pai, deixei para os ternos. Na outra divisão do armário. Ah, a saia que ganhei de presente também foi pra lá, já que é a divisão com maior altura, a saia é longa e eu tenho pernas compridas.

A porta com as prateleiras para as t-shirt será arrumada depois.

Eu disse que procrastinação era a minha melhor qualidade. eheheheheh

Não, não é isto. É que o sol se põe daqui a pouco e preciso tomar banho e escolher um modelito para ir beber com uns amigos. Prioridades, como diria a Luciana ;c)

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publicado às 20:24

avatar

por sapoprincipe, em 19.08.15

Depois do contato inicial - estou ligando porque gostaria de fazer uma obra - vem a definição do que será feito. Seja um projeto de reforma da cozinha, seja um projeto para a casa toda. 

Definida a obra, vem a questão mais difícil – o resultado que se pretende.

A pergunta inicial - o que você quer? ou do que você gosta? - embora curtinha, implica uma formulação densa. Às vezes, é preciso tirar a informação a fórceps.

Não raro, não conseguem responder o que querem. A primeira resposta vem com uma solução do projeto - quero um sofá ali, uma poltrona ... a bancada aqui... e por aí vai. Não que isto não ajude a entender o que o cliente quer, mas essas peças naqueles lugares produzirão o efeito final pretendido?

Então, queiram uma casa aconchegante, acolhedora, luminosa, espaçosa, moderna, ousada, requintada, clássica, aberta, armazenadora... pense nos seus desejos. No que vc gosta.
A partir dessa lista vem um segundo ponto. O profissional tentará equacionar o desejo ao espaço existente. Quais desejos cabem ali? quais definirão uma unidade?
Se você está se aventurando a fazer seu próprio projeto, é hora de responder: "Dentre as coisas que vc quer e gosta, o que é adequado e cabe no espaço que vc tem?"
Esses são os dois pontos centrais. 

Depois virão questões de estilo, de cor, de aproveitamento de algum mobiliário (ou de todos, talvez). E, logicamente, a distribuição do mobiliário, a escolha dos materiais, a combinação das cores será definida no projeto.
Agora, é achar o conceito que irá nortear todo o projeto.
É para isso que vc está contratando um profissional.
Definido isso, o restante são pontos convergindo para produzir o efeito desejado.

Historinha - quando fui fazer vestibular (enem é uma evolução), na maldade que é ter que escolher,
aos 16/17 aninhos, uma carreira para vida toda, estava eu indeciso.
Arquitetura era a resposta desde criança para a famigerada pergunta
- O que vc quer ser quando crescer?
Quando fiquei indeciso, uma vez, uma tia me disse:
como vc é bom em matemática e gosta de desenho, vc pode ser engenheiro ou arquiteto.
Depois desse dia, a resposta ficou na ponta da língua.
E com uma bela intuição, sempre respondi arquiteto, nunca engenheiro.
Uma outra opção era psicologia. E eu ficava pensando que era incoerente.
Hoje tenho muito claro que no curso de arquitetura deveria ter umas cadeiras de psicologia,
principalmente para quem vai trabalhar com design de interiores
(que, antes, era chamado de decorador mesmo).

 

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publicado às 11:00

Casa - fechando a porta

por sapoprincipe, em 27.07.15

O fascínio moderno por móveis inicia-se no século XVII.

Começaram a preencher o vazio medieval com cadeiras, cômodas e camas com dossel, mas de modo praticamente impensado. Estes quartos lotados não eram propriamente decorados.

Em França a nobreza e a alta burguesia viviam em casas individuais grandes - chamadas de "Hotels".  Não havia corredores nestas casas - cada quarto era diretamente ligado ao próximo - e os arquitetos se orgulhavam de alinhar todas as portas "enfilade", de modo que houvesse uma visão ininterrupta de um lado ao outro. É evidente que se priorizavam as aparências, ao invés da privacidade; todos, desde os empregados até os visitantes, passavam por cada um dos cômodos para chegar ao seguinte.

O palácio de Versalhes de Luís XIV também havia sido uma "casa grande", a maior da França. Ele era um lugar público, com poucas restrições aos lugares onde os cortesãos poderiam ir, e, consequentemente, oferecia pouca privacidade. Isto começou a mudar.

As duas grandes descobertas da Era Burguesa - a privacidade e a domesticidade - surgidas, naturalmente, nos Países Baixos, até o séc XVIII já haviam se espalhado pelo resto da Europa setentrional - Inglaterra, França e os estados alemães.

A primeira coisa que Luís XV fez quando se mudou para Versalhes foi reformar seus aposentos particulares. O enorme quarto pomposo ficou como era - para as formalidades e agora o rei dormia em outro lugar, isolado. O rei, antes uma figura pública, sentindo necessidade de privacidade é um exemplo do nível de influência que os valores burgueses exerciam e quão tão longe iam as mudanças de hábitos. Mme. de Pompadour, amante de Luís XV durante pouco tempo e depois sua conselheira e confidente durante quase 20 anos, foi grande incentivadora do interesse de Luís XV pela arquitetura doméstica.

A casa estava se tornando um lar e, após a privacidade e a domesticidade, o palco estava armado para a terceira descoberta: a noção de conforto. Os móveis forçam a civilização que se senta no alto a, mais cedo ou mais tarde, levar em consideração essa questão.

Logicamente que o estilo de vida hedonista das milhares de pessoas vivendo por prazer e se divertindo muitíssimo em Versalhes contribuiu para que os móveis confortáveis surgissem ali em primeiro lugar.

O maior problema para projetar os móveis não era somente técnico - o de como fazer a cadeira - mas também cultural - o de como ela era usada. [será usada. Fazendo um projeto tenho sempre que levar em conta a rotina de vida dos clientes. E, não raro, me vejo explicando como se dará o uso do novo projeto e como isto irá alterar algumas dinâmicas]

Mesas e cadeiras, ao contrário, por exemplo, das geladeiras e das máquinas de lavar, são um refinamento, e não utilitários.

A cadeira adquiriu um papel diferente na França de Luís XIV, época de prodigiosas conquistas militares, políticas, literárias e arquitetônicas. Também nesta época, os móveis foram elevados ao nível das belas-artes. Eles começaram a ser vistos como parte integrante da decoração de interiores, e a disposição improvisada dos móveis no passado cedeu espaço para uma decoração rigidamente arrumada. Ilustrações do palácio real de Versalhes mostraram uma mesa entre cada conjunto de janelas, uma cômoda de cada lado da porta, um banco na base da pilastra. Como a função dos móveis era realçar a arquitetura do cômodo, e não acomodar pessoas, as cadeiras eram projetadas para serem admiradas, e não, por incrível que pareça, para as pessoas se sentarem.

Já no século XVIII a variedade de tipos de móveis - na França - refletia a especialização que estava ocorrendo na divisão da casa; diferentes cômodos estavam adquirindo diferentes funções [ anteriormente os espaço não tinham função definida. Por exemplo, não existia uma sala de jantar, a mesa era armada e desarmada para ser locada no espaço em que queriam comer].

Nesta época surge na França o estilo que ficou conhecido como rococó - trocadilho com barroco e roc derivado de rocaille - como todos nomes da história da arte, ele foi criado após o fato, em torno de 1836. O termo não era elogioso; foi criado por críticos que desaprovavam o estilo. Mas o rococó é de suma importância.

O rococó foi o primeiro estilo desenvolvido exclusivamente para o interior, em oposição ao exterior. Isto realça que a parte interna das casas estava sendo entendida como muito diferente da parte externa, e também que ocorria uma importante distinção entre a decoração de interiores e a arquitetura.

Foi só no rococó que arquitetos como Blondel puderam se especializar em "decoração de interiores". [surgia aí uma das minhas profissões]

No futuro, o rococó seria substituído por outros estilos, mas permaneceria a convicção de que a parte interna as construções deveria ser considerada independente da parte externa.

Começou-se a ter diferentes móveis para cômodos diferentes e formalidades diferentes.

Havia diversos modelos de chaises longues e espreguiçadeiras, marquesa e duchesse para usos feminino.

Até a onipresente cadeira de braço estofada deve a sua forma a moda feminina: os braços recuados acomodavam as amplas saias e os encostos baixos davam espaço para seus penteados extravagantes.

O refinamento delicado do rococó francês foi frequentemente considerado feminino. E era, e não só no sentido metafórico. Se os interiores e a decoração das casas refletiam uma sensibilidade diferente, não foi só porque Luís XV - e portanto a sua corte - era dominado pela Mme de Pompadour, mas porque toda a vida social durante o ancien regime foi dominado pelas mulheres.

As cadeiras medievais, que tinham assentos retos de madeira, quase nunca eram estofadas. Mais tarde diversos materiais - couro, palhinha de junco, ratã - foram usados para fazer cadeiras. Inevitavelmente, tentava-se prender as almofadas à cadeira para evitar que elas escorregassem, o que originou os assentos estofados do final do século XVII. Este desenvolvimento atingiu o seu apogeu nos móveis do rococó francês quando estofaram os assentos, os encostos e até os braços.

Hoje em dia, admiramos [ou criticamos] seus aspectos decorativo [e excessos], mas a sua maior realização foi a ergonomia, pois estas belas cadeiras do rococó eram, acima de tudo, extremamente confortáveis [Cris Reis, lembrei-me de você, é claro].

Apesar trabalho de design de interiores ter surgido lá no século XVII / XVIII o profissional da área ainda é visto com um misto de desconfiança e prescindível. Além de ser basicamente contratado pela elite. O que é uma pena. Conforto, ergonomia, aconchego, identidade deveria ser básico. Mas ainda não conseguimos resolver nossa questão mais básica de teto/moradia [mais pela falta de uma política que não pense só no lucros de alguns] que ainda falta muito para chegarmos lá.

Fechando a porta de Casa, todavia a discussão continua.

 

Adendo - já que falamos de Holanda e França, um pulinho na Inglaterra - para não passar em white.

Enquanto na França o destaque fica pela vida palaciana e a preferência pelas grandes casas e na Holanda o desenvolvimento das casas menores e com privacidade ter sido mais rápido, na Inglaterra a preferência pela casa de campo teve repercussões na arquitetura.

Quase ninguém que tinha uma posição de liderança nos círculos da sociedade morava em Londres.

A planta e a disposição das casas urbanas inglesas, que geralmente eram enfileiradas (diferente do hotel parisiense, que era de centro de terreno) haviam sido padronizadas no final do século XVII, e pouco mudaram nos 150 anos seguintes. As casas de campo, por outro lado, eram bastante variadas, e foi aos seus projetos que os seus donos e arquitetos dedicaram a maior atenção.

Detalhes de etiqueta - a educação que cada vez perdemos mais.

Como não tinham celulares e zapzap, vizinhos de porta trocavam recados por escrito - que eram entregues por um criado - para evitar uma visita desavisada. Era falta de educação (ainda deveria ser) entrar sem ser convidado. Quando se planejava uma visita, era necessário deixar o seu "cartão de visitas" e esperar uma resposta.

Enquanto espero por respostas e pela entrega de alguns cartões, vou no aconchego da minha casa me recostar em meu sofá estofado, e pegar meu kindle para ler Orgulho e Preconceito de Jane Austen - a leitura ficará bem mais clara agora, of coursemente - e me entreter com as investidas de Mr Darc.

Texto tirado de
Casa - Pequena história de uma ideia
Witold Rybczynski


A Drops Corporation todo o meu reconhecimento e agradecimentos.

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publicado às 20:01

casa - um lugar especial

por sapoprincipe, em 15.06.15

Chegamos ao ponto que me fez querer escrever sobre o livro - Holanda.

[ Casa - pequena história de uma ideia - Witold Rybczynski] 

A simplicidade da burguesia holandesa era expressa de várias maneiras. Os trajes do homem holandês, por exemplo, eram simples. Podia variar o tecido mas o estilo não mudou durante várias gerações (equivalem aos ternos atuais. Olhando livros de moda e vendo as variações das roupas ditas femininas - túnicas, saias, faethingale, anquinhas, espartilhos, melindrosas... as saias foram subindo até chegar na minissaia. Já os homens - túnicas, saias, aí chegou-se a solução de calça e casaca e não evoluímos muito mais daí, vem se repetindo com pequenas variações. Mas o assunto é casa e não moda.)

A mesma simplicidade e ponderação podia ser vista nas casas holandesas, que não tinham pretensão arquitetônicas das casas urbanas de Londres ou de Paris e que eram feitas de tijolo (que não se presta à ornamentação elaborada) e madeira em vez de pedra. Materiais mais leves, visto que o terreno era pantanoso e, geralmente, requeria fundações de vigas, cujo custo podia ser reduzido se as fundações suportassem menos peso.

Construir sobre vigas em terrenos recuperados tinha seus inconvenientes, mas também trouxe uma vantagem inesperada para seus ocupantes. Como as paredes laterais comum destas casas suportavam todo o peso do telhado e do piso, as paredes transversais externas não tinham qualquer função estrutural e, devido ao alto preço das fundações, era vantajoso construí-las o mais leve possível. Para conseguir isto, os construtores das casas holandesas inseriam várias janelas grandes nas fachadas, cuja função pode ter sido diminuir o peso, mas que também permitia que a luz penetrasse bastante nos interiores profundos e estreitos.

A luz que entrava por estas janelas era controlada por portinholas e por uma nova invenção - cortinas - que também oferecia privacidade da rua. Quando estas aberturas ficaram maiores, tornou-se mais difícil abri-las da maneira convencional, e os holandeses inventaram um novo tipo de janela - a janela de guilhotina.

Com a prosperidade, e à medida que os artesãos se tornaram mercadores ou agiotas, eles construíram estabelecimentos separados para os seus negócios. Os empregados e aprendizes tinham que procurar a sua própria moradia.

Começava a se operar uma grande mudança. A ênfase que a Idade Média conferia às cerimônias realça o caráter externo da civilização medieval - a vida era uma questão pública. Eram raras as oportunidades para se ter intimidade. Assim como as pessoas não tinham forte consciência de si, elas também não tinham um quarto próprio.

Foi em tais moradias burguesas, modestas, que a vida familiar começou a tomar uma dimensão privada.  Antes que a consciência humana entendesse a casa como centro da vida familiar, precisava-se da sensação de privacidade e de intimidade que não eram possíveis no salão medieval.

O caráter público da "casa grande" foi substituído por uma vida caseira mais sossegada e privada.

 O surgimento da casa de família era um reflexo da importância que a sociedade holandesa começava dar à família. O cimento desta unidade era a presença das crianças. As mães criavam os próprios filhos - não havia babás. As crianças pequenas iam para um jardim de infância aos três anos e depois para a escola primária durante quatro anos. Os Países Baixos tinham, acredita-se, o mais alto nível de alfabetização da Europa e nem os estudos secundários eram incomuns.

Também não havia tantos criados, pois a sociedade desaprovava a contratação de criados e o governo cobrava impostos especiais. [estamos falando de fins da idade Media. Passam-se séculos e no XXI vemos brasileiros esperneando por que o governo decidiu, finalmente, reconhecer os direitos das trabalhadoras domésticas.]

Valoriza-se mais a independência do individuo do que em outros lugares.

As casas holandesas eram muito limpas. Uma das explicações seria um tipo de manutenção preventiva - "está umidade do Ar que faz com que os metais tenham uma propensão a oxidar e a madeira a mofar, o que lhe obriga a tentar evitar ou solucionar o problema esfregando e limpando constantemente."

Nas casas os andares de cima começaram a ser tratados como sala formais. O segundo andar, de frente para a rua, foi transformado em uma sala de visitas e outros quartos começaram a ser usados somente para dormir.

Quando se pedia que os visitantes tirassem os sapatos ou calçassem chinelos [Henrique, agora vc já está avisado ;c)] , isto não era feito imediatamente ao se entrar na casa - mas quando se ia para o andar de cima. Era ali que se encerrava a esfera pública e começava o lar. Este limite era um conceito novo - o desejo de definir a casa como um lugar separado, especial.

 

NB - o texto poderia quase estar todo entre aspas. É quase só copiar e colar.

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publicado às 16:19

sob patrocínio de Drops Corporation ...

por sapoprincipe, em 05.05.15

Continuando a leitura de Casa - Witold Rybczynski (texto original de 1986 e publicação brasileira de 1996).

Sua referência de residência é a dos burgueses.

"O que remete o burguês ao cerne de qualquer discussão sobre conforto doméstico é que, diferente do aristocrata, que vivia em um castelo fortificado, ou do clérigo, que vivia em um mosteiro, ou do servo, que vivia em um casebre, o burguês vivia em casa".

Comparando com o habitar hoje podemos perceber que houve várias alterações numa visão global e na definição do habitar.

Algumas mudanças são óbvias - os progressos do aquecimento [conforto ambiental, diriam os mais contemporâneos] e da luz que se devem às novas tecnologias. Nossos móveis para sentar ficaram muito mais sofisticados e mais bem adaptados ao relaxamento e outras mudanças são mais sutis - o modo de usar os cômodos, ou quanta privacidade eles conferem.

A casa da idade média era um local público - as pessoas moravam e trabalhavam no mesmo local.

"Era pouco provável que alguém do sec. XVI tivesse seu próprio quarto. Foi mais de 100 anos mais tarde que surgiram os cômodos onde os indivíduos pudessem ficar a sós - eram chamados de 'privacidade'."

"Os interiores das casas medievais restauradas sempre parecem vazias. Os grandes cômodos só têm poucos móveis, uma tapeçaria na parede e um banco ao lado da lareira. Este minimalismo não é uma artificialidade moderna; as casas medievais eram pouco mobiliadas." Os móveis daquela época não eram complicados e a maioria desmontáveis ["As palavras francesa e italiana para mobília - mobiliers e mobília - significam, como a palavra portuguesa, 'o que pode ser movido'."]

Depois desta descrição fiquei pensando que uma das mudanças em relação aos nossos dias seria a compartimentação dos espaços (sala/cozinha/quartos...), mas, ao mesmo tempo, não é raro hoje em dia ouvir alguém dizer - eu gostaria muito de ter um loft.

Outra grande diferença seria o conforto.

" A palavra 'confortável' não se referia originalmente ao prazer e à satisfação. Sua raiz latina é confortare - fortalecer ou consolar - e este significado se manteve durante séculos.

Sucessivas gerações expandiram o sentido de conveniência  e finalmente 'confortável' adquiriu o sentido de bem-estar físico e de prazer, mas isto só ocorreu no século XVIII.

Sir Walter Scott foi um dos primeiros romancistas que usou este novo sentido quando escreveu: 'deixem o mundo congelar lá for, aqui dentro está confortável'."

 

NB - Drops Corporation não é responsável pelo texto, pelo português ruim
 ou pelas vírgulas fora do lugar.

Só é responsável por colocar a cultura ao meu alcance.
A Drops Corporation todo o meu reconhecimento e agradecimentos.

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publicado às 14:14


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