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além dos "chicos"

por sapoprincipe, em 04.10.16

161004_Jean_Paul_Gaultier.jpg

Jean Paul Gaultier

A presença do gênero fluido cada vez mais na mídia tem me chamado muito a atenção.
Num passado, não tão distante assim, o sonho de muitos gays era ser mulher. Relacionar-se com héteros, usar vestidos sofisticados, deslumbrantes - com grande influência, claro, de Hollywood e as passarelas de alta costura de Paris. Depois, a "revolução sexual" da pílula e o movimento hippie dão uma bagunçada geral. Em 69, acontece a batalha de Stonewall e começa mais uma mudança. Era muito comum ver bichas de bigode e havia um entendimento de que gay tinha que transar com gay, e passaram a ser chamados de "entendidos". Depois o HIV aparece nos noticiários fazendo ligação com a homossexualidade. Os preconceituosos, achando que seria o abate derradeiro, fazem com que uma parte dos gays se una para a luta e para amparar os amigos (outros optaram por esconder-se no armário de um casamento hétero). E o que seria o "inferno" faz avançar muito o movimento gay. Formam-se alguns grupos por aqui e até mesmo começam a acontecer as Paradas. Ameaça-se uma diversidade. Mas não demora muito, vemos fortalecidos o culto ao corpo e a valorização dos jovens que desemboca nas "barbies" - bichas bombadas e musculosas (até mesmo para fugir do estigma da doença). A internet se desenvolve cada vez mais, informações circulando, mais pessoas tendo acesso. Começa uma cobrança grande da fraca presença de lésbicas no movimento. Como também dos bissexuais. Depois, acrescentam-se letrinhas - não menos importantes - na sigla. Travestis. Transgenêros.
A discussão de gênero ganha cada vez mais espaços. E o que antes era feito de forma discreta ganha holofotes - representatividade importa.
Atualmente, vemos cada vez mais matérias sobre transições de gênero. É lógico que a luta não começou com ela mas, por aqui, o fato de a Laerte ter feito sua transição nas páginas de jornais e revistas ajuda na discussão e aceitação - ou pelo menos fez o assunto ser presença marcante na pauta da mídia tradicional.
E cada vez mais ouvimos falar de pessoas que querem flutuar ou não definir seus gêneros.
O momento político pouco animador pelo qual passa o país torna essas discussões ainda mais importantes. Mais enfretamentos virão.
Por mais que queiramos mais e pra já, o processo é sempre lento. Mas conseguimos e vamos conseguindo avançar. Mesmo que aos poucos.
Pensando nesses pontos, fiquei ponderando aqui o quanto cada pequena coisa e gesto contribuiu para despertar o interesse e jogar luz sobre pontos que estavam na obscuridade.
A fluidez hippie, a ambiguidade de David Bowie, as fotos de Mick Jagger vestido de mulher, Lennie Dale/Dzi Croquettes, o modo tropicalista de Caetano e Gil, Jean Paul Gaultier desfilando modelos de saias para homens (não escoceses - rs), Ney Matogrosso de peito cabeludo rebolando, Boy George, Roberta Close, Ru Paul, Cassia Eller (que do casal é quem engravida), Conchita Wurst, Laerte, Seann Miley Moore, Liniker (que, na última reportagem que vi, estava sem barba)... esses foram os nomes que me vieram assim de imediato e que me fizeram ver avanços pelas posturas.
Admiro demais pessoas que rompem barreiras. Mas, nesse item aí, consigo no máximo flertar com usar saia vez por outra - e não só no carnaval.

161004_David_Bowie.jpg

David Bowie - imagens via google

publicado às 12:08


9 comentários

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De Helê a 04.10.2016 às 16:24

Querido, você também rompe barreiras sendo você mesmo, dessa maneira honesta e discretamente amorosa. Ensinando com seus questionamentos. E escrevendo textos como este. Obrigada, por tudo.
amor, Helê
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De sapoprincipe a 05.10.2016 às 15:14

sei da sua generosidade.
obrigadim.
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De Elir Ferrari a 04.10.2016 às 20:30

Que delícia esse texto. Acho que dá bem o panorama de que as coisas são conquistadas e não nascem prontas. O jovem que nasce hoje não sabe da longa trajetória para que se chegasse a essa configuração em que ele vive. Esse texto resgata isso! Foram lutas por vezes invisíveis, sutis, por outras violentas e de grande visibilidade. Parabéns! Precisamos ficar atentos para que não haja o retrocesso que estão querendo nos impor...
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De sapoprincipe a 05.10.2016 às 15:17

um apanhado geral de uma vivência grande.a luta terá que ser muito intensa, pois insistem no retrocesso.
obrigadim.
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De Anónimo a 06.10.2016 às 21:05

Texto ótimo esse, retrospectiva perfeita.
Quando comecei a ler, fiquei pensando nas barreiras que foram rompidas também pelas mulheres, com muita luta e sofrimento... Mas percebi que a dos gays é uma luta muito mais árdua, mais dura, porque os oponentes são de todas as faixas sociais, de todas as idades... Vem das igrejas, das famílias, até das crianças... E muitas vezes terminam em agressões físicas violentas e até em morte.
Por isso eu tenho um respeito profundo pelas pessoas que ousam romper paradigmas, sair do armário, enfrentar os preconceitos e mesquinharias da sociedade. Seja de forma aberta e ostensiva (me lembro aqui de Ru Paul), seja de maneira sutil mas não menos eficaz e louvável.
Você faz a sua parte do seu jeito, que é o seu jeito, escrevendo essas reflexões, por exemplo.
Eu amo você.
Beijo
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De Beth Salgueiro a 06.10.2016 às 22:35

esse post aí em cima sou eu... hahaha
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De sapoprincipe a 07.10.2016 às 14:32

pela escrita bem achei que era.
é, vou fazendo do modo que posso.
<3
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De Luciana Nepomuceno a 07.10.2016 às 15:51

eu não tinha lido esse post. que bom que li jusamene agora, depois de vr um vídeo pavoroso de uma mulher em Maringá, contra a ocupação das escolas feita pelos estudantes secundaristas. Seu texto renovou a chama ;)
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De sapoprincipe a 10.10.2016 às 00:24

manter a chama acesa.

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