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singular

por sapoprincipe, em 21.06.18

Roxo é a cor dos sentimentos ambivalentes. No violeta todos os opostos se fundem.
Em nenhuma outra cor se unem qualidades tão opostas como no violeta: é a união da cor magenta e da cor azul, sentimento e intelecto, amor e abstinência,  sensualidade e espiritualidade, força e delicadeza. Todas as cores mistas são percebidas como ambíguas, não objetivas, incertas. O violeta ainda mais.
A união dos opostos é o que determina a simbologia da cor violeta.

180621_roxo.png

Roxo, violeta, púrpura (na Alemanha púrpura é vermelho), ameixa, malva, berinjela, íris podem ser algumas de suas denominações. Quando mais clara, por mistura com o branco, pode ser lilás, lavanda, ametista.
[fundo musical - João Bosco/Capinan
É tornar a nascer
Violeta e azul
Outro ser
Luz do querer...
Não vai desbotar
Lilás, cor do mar
Seda, cor de batom
Arco-íris crepom...]

Antes de cair a noite, o violeta é a última cor que antecede a escuridão total.
O roxo é a cor mais escura - oposição ao amarelo que é a mais luminosa.
O violeta é a cor que fica entre a vida e a morte.
O violeta é a cor mais íntima do arco-íris, ele se transmite ao invisível ultravioleta.
Assim, o violeta marca a fronteira do visível com o invisível.
Como complementar ao amarelo, que é a cor do entendimento, o violeta é a cor da fé – e a cor da magia.

Isso faz com que a cor, da mesma forma, tenha ligação com a superstição.
"O que veste um feiticeiro? 'Uma túnica violeta!', diz a maioria de forma espontânea.
As bruxas malvadas se vestem de roxo, as fadas bondosas se vestem de lilás."
[Beth S. e Raquel S., vocês se vestem com que cor? eheheh Maldade minha.]

"O violeta simboliza o lado sinistro da fantasia, a busca anímica, tornar possível o impossível."
Na simbologia indiana, o violeta é a cor da metempsicose, a transmigração das almas. Na psicologia moderna é a cor dos alucinógenos, que devem abrir a consciência a estímulos irreais.
Nos chakras, é o ponto mais alto - no alto da cabeça, o cérebro. Ligação com o divino.

" As antocianinas, substancias naturais que conferem a cor roxa, azul e vermelha a alguns alimentos, podem se tornar uma alternativa para o tratamento de tumores, revela estudo publicado no Scientific Reports."
As cores podem nos curar? Precisamos de mais estudos, com certeza. Mas que as cores nos influenciam, sem sombra de dúvida.

"Todos os nomes de mulher derivados do violeta são nomes de flores. ‘Iolanda’ é a violeta grega. Da urze violeta resultou o nome, antigamente muito popular, ‘Erika’; mais extravagantes são ‘Hortênsia’, da flor rosa-lilás hortênsia, e ‘Malvina’, da malva. ‘Violet’ e ‘violette’ são, igualmente, tanto as flores quanto as cores em inglês, em francês, como em português.
Embora o violeta seja uma cor eclesiástica, não existem nomes masculinos dessa cor."
[Máx, não tive como não lembrar da escolha da Erica para a cor do quarto.
Cristina Capella, teve "algum roxo" na escolha do nome da Iolanda?]

180621_violeta.png

Violetas

Também a designação da cor “lilás” (que é o roxo com branco) é permitida como nome de mulher, ela veio da flor francesa “lilás”, em inglês “lilac”, e vou incluir aqui Lila - do espanhol.
[Lila, além de lilás, lila significa diversão - sua cara, não? Se bem que agora a sua cara é mais viagem/turismo.]

"É digno de nota observar a proximidade entre os termos ‘violeta’ e ‘violência’. Em italiano, o nome da flor é ‘viola’ – contudo, ‘violenza’ é ‘violência’ e ‘violare’ corresponde ao verbo ‘violar’. Tanto na Inglaterra quanto na França, ‘violência’ se diz ‘violence’, e em ambas temos também ‘violation’, ‘violação’. É historicamente plausível que essa ligação tenha surgido em virtude do púrpura, pois o violeta púrpura era na Antiguidade a cor dos governantes. Assim, essa cor, no tom púrpura, tornou-se a cor do poder. E o nome da violeta transformou-se no nome da violência."

O violeta tem um passado grandioso. Além dos governantes/do poder, também, é uma cor eclesiástica.
A cor do poder temporal é, na interpretação eclesiástica, a cor da eternidade e da justiça. Assim a Igreja resolveu o dilema de, apesar de lutar pelo poder, se apresentar como humilde servidora de Deus.
No acorde da devoção, o branco é a cor divina; o preto é a cor política; o violeta é a cor da teologia.

Na Roma antiga, a púrpura era, por lei, a cor imperial. A tinta que o imperador usava para assinar.
O aposento onde a imperatriz dava à luz seus filhos era todo atapetado de seda púrpura.
Júlio César criou leis limitando o seu uso. Somente ele podia trajar uma túnica inteiramente púrpura.

Em função da produção da tecelagem, do corante, da tintura, do transporte, levava-se bastante tempo para os produtos chegarem ao destino, o que poderia ser uma justificativa para os altos preços.
Consequentemente, seu uso já seria restrito, independente  dos decretos de César.
Todavia, Cleópatra, rainha do Egito, que não tinha de obedecer ao decreto de César, tingiu de púrpura as velas de seu barco.
[Cleo lacrou. Poderoooooosa.]

Suspeita-se que os fenícios descobriram o tingimento púrpura por volta de 1500 a.C.
Para se obter a tintura púrpura, necessitava-se do muco incolor que o caramujo secreta.
Na antiga Roma, havia cidades que faziam a tintura.
Punham-se os caramujos em caldeirões e eles eram deixados ali apodrecendo – o que fazia com que produzissem mais muco, além de exalarem um mau cheiro insuportável. As cidades que produziam a tintura eram famosas por esse mau cheiro.
[e vc aí falando que gostaria de viver na antiguidade pq era chic].

"Apesar de os caramujos e a mão de obra serem baratos, nos tempos da Antiga Roma, um quilo de fio da cor púrpura custava vinte vezes mais do que os mais caros tecidos. Um metro de seda púrpura custava o equivalente a vários milhares de euros."
[capitalismo selvagem]

"Desde a Antiguidade, as violetas eram a flor-símbolo da moderação, contudo com uma conotação muito mundana: nos banquetes era costume usarem-se coroas de violetas na cabeça: o perfume das violetas – era o que se esperava – protegia contra dores de cabeça e ressaca.
O mesmo efeito era prometido pela pedra preciosa ametista, que tem a cor da violeta. Quem usasse uma ametista estaria protegido contra a bebedeira. Daí vem também o nome da pedra – a palavra grega ‘amethysos’ significa 'não bêbado'".

[Acho que é um tributo. De novo, João Bosco, agora com Aldir Blanc... minha pedra é ametista/ minha cor,...]

"Uma possível explicação lógica para a antiga superstição: na alta sociedade dos antigos, era costume usar copos de ametista polida. Nesses copos não havia como se distinguir água de vinho, e quem quisesse permanecer sóbrio prosseguiria no banquete bebendo apenas água e passaria despercebido."

De todas as bandeiras do mundo, apenas uma tem entre suas cores a roxa, que representa o seu papagaio. É da Dominica - uma ilha no mar do Caribe, mais precisamente das pequenas Antilhas.

180621_Domínica.png

Cor da sexualidade pecaminosa. Das feministas. Da homossexualidade. Dos olhos de Elizabeth Taylor.

As pessoas mais a rejeitam do que apreciam. Para quem trabalha com cor, não apreciar alguma pode dificultar o exercício da profissão.
"Johannes Itten, professor da Bauhaus, obrigava seus alunos a usarem com maior frequência aquelas cores de que eles menos gostavam. Naturalmente, a maioria dos alunos descobria então que as cores de que menos gostavam tinham uma beleza que eles não imaginavam.
Descobrir belezas e possibilidades é um grande ganho."

Não por acaso, o violeta foi a primeira cor sintética.
Como sempre, culpa do estagiário.
Em 1856, William Henry Perkins, um ajudante de laboratório de 19 anos, destilou o carbono – fez isso por erro, pois tinha sido encarregado de outra tarefa; diante do pasmo geral, obteve um corante violeta. Perkins patentou-o sob o nome de Perkins mauve, um violeta muito intenso, que ligou seu nome ao da malva.
Num primeiro momento não foi usado, até tecelões franceses descobrirem que a patente não valia na França - não precisariam pagar - usaram à mão cheia. Tanto que de 1890 e 1900 recebeu o nome de “a década da malva”.
Foi uma cor típica do Art Nouveau.

180621_ametista.png

Ametista

O roxo é identificado, além do mais, com a vaidade. Um dos sete pecados capitais que, nos dias de hoje, é entendido como menos danoso.
[será? Essa exibição toda aí nas redes sociais, de roupas de griffe, é menos danoso mesmo?].
Luxúria entra nessa conta, inclusive.
Oscar Wilde chamou a sexualidade proibida de “as horas violetas no tempo cinzento”.
Dior, quando embalou seu vidro (verde escuro) do perfume Poison numa caixa violeta, não estava querendo dizer do -veneno- mas, sim, do seu cheiro arrebatador.
Alguns o consideraram como a cor dos "pecados bonitos". Ou doces, se considerarmos que entra na lista das cores preferidas para embrulhar os tabletes de chocolates - Cadbury e Milka estão aí de exemplos.
Caixas de jóias forradas com veludo violeta entram, juntamente, na lista.

Lavanda, violeta, alecrim são aromas tidos como típicos das “solteironas”.
"O lilás e o violeta foram frequentemente utilizados no design das embalagens dos cosméticos destinados às mulheres 'maduras'."

Entrou, em uns poucos períodos, na moda. Apesar de remeter muitas vezes à penitência da Semana Santa, para o vestido de luto de algumas viúvas, para os cabelinhos tingidos de senhorinhas fofas, não se pensa em humildade, recato ou penitência – o violeta é percebido como uma cor extravagante.

"O violeta denuncia que a escolha foi conscientemente direcionada para uma cor especial. Ninguém usa o violeta de forma impensada, como se usa o bege, o cinza ou o preto. Quem se veste de violeta quer chamar a atenção, distinguir-se da massa. Quem escolher o violeta sem verdadeiramente apreciá-lo dá a impressão de estar disfarçado, transmite a impressão de que a cor tem mais força do que a pessoa que a usa. Quem se veste de violeta tem que saber por que motivo o faz."

A mais singular e extravagante das cores.

[na sequência dos posts sobre cores, fiquei pensando qual seria o título para este sobre roxo.
Passei por magia, mística, luxuria, pecados bonitos e quando li a frase acima defini - singular.
Aí, me lembrei da época da faculdade. No primeiro ano, numa conversa com colegas da turma, caímos numa discussão sobre cores e preferências. O que combina, o que não combina. Lembro-me claramente os exemplos que usei para rebater a desaprovação para vermelho-preto e roxo. Uma mulher num longo preto com uma rosa vermelha na mão, pra mim era elegante a combinação. Um arranjo, sobre a mesa de jantar com toalha de linho branco, de orquídeas brancas com labelos roxos (as comuns Cattleya purpurata) seria de grande beleza e sofisticação. Melhora até o paladar, não? Lógico que fui gozado por dias por conta do roxo. Acabou virando minha resposta para cor preferida, quando não quero prolongar discussão - roxo.
A mais singular e extravagante das cores. Atirei no que vi, acertei no que não vi.]

Notas:
Livros utilizados para produção do texto:
Frase, Tom - Banks, Adam - O Essencial da Cor no Design
Goethe, J. W. - Doutrina das Cores
Heller , Eva - A Psicologia das Cores
Pastoureau, Michel - Dicionário das Cores do Nosso Tempo
Queiroz, Mônica - A Cor Incorporada ao Ensino de Projeto.

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publicado às 15:00


2 comentários

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De Elir Ferrari de Freitas a 21.06.2018 às 19:27

Eu não sabia que minha cor preferida era a roxa até ler esse texto (eu nunca soube ao certo qual era a minha cor preferida, porque sempre gostei de todas...). Descobri que "minha pedra é a ametista e minha cor" não é o amarelo, mas a roxa. De "todas as cores que há nas [flores]", a violeta é a que sempre gostei mais, porque não é a "rosa no Rosa", mas a violeta na violeta...

Será que foi a cor dos meus mantôs e túnicas de minhas vidas passadas??!! hehehe
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De sapoprincipe a 24.06.2018 às 16:15

pretensão e água benta... eheheheheh
roxo é mesmo uma cor impactante e forte.

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